O tradutor cleptomaníaco

Não, isso não é uma notícia absurda, mas um livro de contos do húngaro Dezsö Kosztolányi (1885-1936) (editora 34, Trad. Ladislao Szabo), com esse conto delicioso que dá nome ao livro. Gosto quando nossa profissão é retratada em livros, ainda mais com ironia e comédia. A história é de um tradutor que, ao passar do idioma fonte para o idioma alvo, rouba objetos das personagens, paisagens e outras coisas. E esse conto também me fez pensar em como podemos nos sentir cleptomaníacos quando nos apropriamos de um texto numa língua que consideramos bela e rica e passamos para nosso idioma, que talvez não achemos tão belo assim. E aí está o erro: desmerecer o nosso idioma e não aprendê-lo com tal requinte a ponto de ter a tradução precisa para aquela expressão, termo técnico ou palavra, sem achar que alhos, bugalhos ou coisa que o valha servem para aquilo que pede algo completamente diverso. O saber do idioma para o qual se traduz deve ser  profundo e construído todos os dias, não apenas com erudição, mas também com abertura para saber as gírias, a língua popular, variantes diversas e o português corretíssimo. Dessa forma, não seremos ladrões da tradução, mas grandes contribuintes para a nossa própria cultura.