Ferramentas necessárias


Depois de uma semana sem conseguir passar por aqui, resolvi falar de ferramentas que os tradutores têm à disposição, mas muitas vezes não utilizam ou conhecem. Para muitos tradutores já há tempos no mercado choverei no molhado, mas para os iniciantes e não tradutores pode ser de valia:

- Você estou absurdamente um idioma, que ótimo. O tem na ponta da língua? Muito bom. Agora, você conhece bem o idioma para o qual você traduzirá? É muito comum, no caso de traduções de um idioma estrangeiro para o português, que a pessoa seja muito fera idioma, não caia em armadilhas e esteja sempre atenta a nuances da língua, mas tem um português médio ou ruinzinho. Daí não adianta, sofrem os revisores, sofre o cliente. É essencial que se saiba o idioma da língua fonte, mas imprescindível mesmo é saber muitíssimo bem o idioma da língua alvo, ou seja, aquela com a qual você redigirá o texto.

- Dicionários não são apenas bonitos nas estantes, ficam ótimos abertos e utilizados. Uma reclamação frequente dos habitués das listas e fóruns de tradutores é que ninguém mais se dá ao luxo de realizar uma bela pesquisa em seus livros e materiais e, até mesmo na internet, antes de distribuir uma lista de termos descontextualizada em fóruns de discussão da profissão e pedir auxílio. Não é à toa que muitos estão deixando essas listas, pois em vez de se discutir a importância da tradução ou termos realmente cabeludos, aproveita-se da boa vontade de muitos colegas para angariar termos e ganhar tempo. E isso é muito feio.

- A internet também é um belo meio de pesquisa, mas cuidado: há muita besteira e falta de noção em diversos sites que, se não bem analisados, parecem fornecer dados confiáveis (veja um exemplo que Danilo Nogueira postou em seu blogue aqui). Acredite em seu bom senso, procure saber quem escreveu aquilo e como chegou àquele resultado, veja se realmente aquilo se diz assim com pesquisas cruzadas, utilize a ferramenta de imagens no Google para ver se aquilo é aquilo mesmo e não outraquilo, esgote os meios de busca, utilize dicionários on-line (muitas vezes eles nos surpreendem) e veja o que encontra no Google Books, atualmente um bom meio de pesquisa de excertos de obras que, às vezes, podem ser úteis e boas de ser adquiridas.

- Desconfiômetro ligado o tempo todo: se a frase lhe pareceu fácil, que custa conferir, em vez de acreditar piamente nela? Se está estranha, deixe-a descansar um pouco, respire você também e vá em frente. Muitas vezes a solução para ela está no próprio texto ou em um cochilo no meio da tarde (quando há tempo) ou em algum lugar que você nem imagina. Não perca tempo com algo que não anda, como um carro: se não tem combustível, não adianta forçar a barra, o negócio é seguir em frente para buscar o necessário para ele se mover.

- Organize seu tempo e saiba qual sua produção em todos os aspectos: quantas palavras por hora, quantas palavras por dia, as dificuldades de cada tipo de texto e as paradas necessárias que você precisa fazer de tempos em tempos para respirar e distrair-se. Também seja organizado com seus arquivos e com seus glossários.

- Esteja em contato com outros profissionais competentes e responsáveis, forme mesmo seu time, sua tropa de tradutores, com os quais você poderá contar e que possam contar com você. Trocar ideias e, não apenas isso, experiências é muito válido. O tradutor não deve ser o ermitão dentro de sua caverna de livros e dicionários em uma torre de marfim babélica: precisa visitar o cliente, visitar outros tradutores, os escritórios e agências para os quais trabalha, enfim, mostrar a cara e dizer a que veio.

- Tenha ciência de suas limitações e aprenda a dizer NÃO. Essa é uma palavra preciosa, que deve ser usada com cautela, mas sem medo. Se não conhece da área, não se arrisque, indique alguém que saiba. Seu cliente vai amar você mais ainda depois disso. Se conhece da área, lute para cada vez mais se aperfeiçoar. Se o português ou o idioma para o qual traduz está meio capenga, recicle-se. Faça cursos, procure outros profissionais que possam orientar você em suas dúvidas e dificuldades. O trabalho de aperfeiçoamento do tradutor só acaba quando ele desiste da profissão ou morre. Do contrário, é aprendizado contínuo, dia após dia.

- Leia, desesperadamente leia. Não apenas seus assuntos prediletos, mas tudo que caia na sua mão e tenha alguma relevância. Bulas de remédio, rótulos de desodorante, caixas de cereais, compêndios de culinária, obras de eminências em áreas diversas, romances (dos bons e alguns ruins, para saber como não fazer), livros técnicos de tradução, matérias de jornal, blogues correlatos e tudo mais. Você nunca sabe quando vai precisar saber algo exdrúxulo em uma tradução.

- Participe de cursos. Hoje em dia há muitos cursos on-line, à distância. Às vezes você pode achar que o curso é inútil, mas uma frase bem colocada em muitos casos vale mais do que um curso de horas de duração.

- Atualize seu equipamento, teste e invista em programas de tradução, procure instruções e as melhores maneiras de ganhar tempo em seu trabalho. Otimize sua vida e pode começar pelo trabalho: o restante vai ficando cada vez mais fácil depois disso.

- Esteja aberto à enxurrada de informações que estão por aí, pois algo ali você pode aproveitar. Não se sobrecarregue, mas preste atenção a tendências em todos os sentidos: de economia à moda, artes e cultura popular, gírias e óperas, um dia você pode precisar de algo assim. Seja para um trabalho ou apenas para um bate papo, que é sempre gostoso.

Espero que algo aqui valha mesmo a pena para você e que algum dia você se lembre que ser tradutor é ser descobridor, curioso, teimoso e fuçador. O prazer da profissão é imenso.